***

 

ela chegava

com o fogo dos lábios

e trazia no ventre

pássaros aprisionados

 

eu os alimentava

e me libertava

Postado por assis freitas às 10h54


[]


SOLIPSISMO

 

ejaculam sonhos

entre doidivanas

no silêncio da noite

 

falos que cantam

no divã de Freud

Postado por assis freitas às 11h43


[]


CONVITE

 

Dê-me a noite

Que te dou poesia

Vadia

Como água a correr

Podre em esgoto

- sentimento oposto -

 

Dê-me outra coisa

Qualquer

Que faço versos

E transformo o aço

Duro do olhar

Em furtivo sorriso

 

Ou nada me dê

Para que eu fique

mudo

E constate sombrio

O oblíquo silêncio

Pálido de um muro

 

 

Postado por assis freitas às 20h10


[]


ESPAÇO INTERDITADO

 

 

O que por fim

Vaza e escorre

São presságios:

Águas do rio

Infindo da noite

 

Não há mistério

Adormeço um

Sono cansado

Na eternidade

Desse instante

Postado por assis freitas às 20h08


[]


LABOR

 

Nada aprendi sobre o sentido das palavras

As suas acepções e os seus significados

Apenas deito-me no sulco delas

Para percorrer as suas reentrâncias

Enquanto elas passeiam soltas

E perplexas nestes versos desconexos

Postado por assis freitas às 20h06


[]


CORREIO SENTIMENTAL III

 

Ó delicada senhora

Peço-te ausência leve

Neste espaço de horas

Que se derrama febril

 

Ó delicada senhora

Permita ainda o enlevo

Que se insinua na voz

Deste silêncio breve

 

Que nada quero saber

Mesmo naquilo sabido

Que dói apenas pensar

Quão vário é o olvido

Postado por assis freitas às 20h02


[]


CORREIO SENTIMENTAL  II

 

Ninguém me disse que tu virias

Mas o reticente caminho da voz

Indicava o instante da presença

 

Como aliança de nós inseguros

Eu fui vário de olhos e festas

Fincar o coração neste umbral

 

Agora fico de sal estátua posta

Cultuando o arrebol enluarado

No imorredouro vazio das horas  

Postado por assis freitas às 20h00


[]


POEMA

 

Neste dia claro

Nada há a declarar

- Pardais fornicam

Enquanto formigas

Em fila de procissão

Resgatam migalhas -

 

Neste dia claro

A turva  sombra

Ofusca o sol

E sibila em jatos

A saliva morna

Deste mormaço

 

Neste dia claro e alvo

Olhos ensimesmados

Conduzem o vórtice

De uma mesma agonia

(mansos jazem fitos a

face delicada de Deus)

Postado por assis freitas às 10h05


[]


NAQUELA ÉPOCA NÓS ANDÁVAMOS EM BANDOS

 “As idéias, para mim, são como as nozes, e até hoje não descobri melhor processo para saber o que está dentro de umas e outras, - senão quebrá-las.” Machado de Assis

 

Naquela época nós andávamos em bandos. Não sei se era pura impressão. Ele não. Não se acostumava com essa tarefa de escolhas. Um dia chegava músico, outro dia escritor. Tinha sempre notícias novas, detalhes de uma canção, coincidências de uma narrativa. Vinha sempre imbuído de um encantamento para nos presentear. Do mesmo modo que chegava, partia. Certo dia soubemos que havia morrido. Foi quando decidi contar a sua história. Mas ainda era muito cedo. Era preciso que o tempo passasse para que as coisas ficassem mais nítidas dentro de mim. Só assim teria condições de recuperá-lo. Transformá-lo em cristal muito fino, absolutamente transparente.

Andávamos em bandos. Não era impressão. Ele não. Quando nos encontrava trazia uma alegria desmesurada. Alegria que se expressava nas palavras que ele sabia tão bem usar. Movia com facilidade o rumo de qualquer conversa. Certa feita pediu o violão e tocou uma música que nunca havíamos escutado. A letra da canção dizia exatamente aquilo o que queríamos há tanto tempo expressar e não conseguíamos. Era uma espécie de mágico sem truques. Quando de outra vez pedimos que repetisse a canção, ele se negou afirmando que já a tinha esquecido. Estava preparando coisas novas que quando estivessem prontas nos mostraria.

Assim passava o tempo. Andávamos em bandos. Ele não. Poeta leia aqui o que escrevi, ou, Poeta escute isso aqui. O chamado possuía essa variação. Eu lia atento as narrativas. Às vezes elogiava, às vezes criticava esse ou aquele trecho. Ele ria. Você é um grande poeta. Deixe-me ver o que anda fazendo. Eu mostrava as páginas rabiscadas. Tinha uma generosidade absoluta com os amigos. Sempre acreditou mais em mim do que eu mesmo. Não pare de escrever Poeta, você é dos bons.

O engraçado é que a maioria de nós queria ser despojado como ele. Não dava importância ao que fazia. Repetia – citando Machado - que as idéias eram como nozes, tinha-se que quebrar para ver o que havia dentro. Depois concluía: as minhas nozes ou estão vazias ou não tem sabor duradouro.

            Na verdade ele quebrava nozes para nós, nos alimentava com as suas idéias. Andávamos em bandos. Ele não. Poeta estou tentando escrever um romance. Já tenho o título. Depois me contou que o escritor Antonio Torres depois de muitas idas e vindas para compor o primeiro livro, encontrou-se numa noite chuvosa dentro do apartamento em São Paulo escutando My funny Valentine de Miles Davis. Ao som do trompete mágico sentiu Um cão uivando para a lua. Era o título do seu primeiro livro. Está vendo Poeta, estou no caminho certo, já tenho o título agora é só escrever o livro.

            Não sei se ele começou o romance. Mas o título era por demais sugestivo: Quando os homens menstruam. Tentou até me explicar o enredo. Para meu azar, foi exatamente o dia em que estava com a namorada nova. Uma dura conquista que consumiu vários poemas, noites de vodca e quase uma úlcera. Só tinha olhos para ela. Não prestei atenção ao que ele me falava. Pouco tempo depois havia esquecido o romance, eu também em pouco tempo já tinha outra conquista em alvo. Seguindo o mesmo ritual: vários poemas, noites de vodca e quase uma úlcera.

            Ele às vezes desaparecia por várias semanas. Voltava mais pálido do que o normal. Chamava a esses períodos de reclusão voluntária. Não sabíamos o que fazia durante esses períodos. Numa dessas voltas, nos encontramos numa mostra de filmes para assistir a Árvore dos Tamancos de Ermano Olmi, cineasta romeno premiado em Cannes. O filme era longuíssimo, seis horas de duração. Ele estava com um livro enorme debaixo do braço. Quando a sessão começou retirou uma pequena lanterna do bolso para ler. Ficou assim durante todo o filme.

No saguão me disse: Poeta você tem que ler este livro, é do João Ubaldo, Viva o povo Brasileiro. - E como possuía detalhes a respeito de tudo, continuou: Poeta os originais desse livro tinham 6.750 gramas, pesados na balança da bodega de Valter na ilha de Itaparica. E olha que o João disse que o Valter ficou famoso por não ser rigoroso com o peso da sua balança.

Também me falou que o livro foi escrito porque o editor do João brincou dizendo que os escritores brasileiros só escreviam livros pequenos, mirrados, de birra João fez Viva o povo brasileiro. Pouco tempo depois me presenteou o livro com a dedicatória: Poeta, depois de ler este livro, você vai querer escrever narrativas. É pena que ele não esperou tempo suficiente para ver sua previsão concretizada. Partiu deixando-me com as nozes que eu teimo em quebrar para ver o que há dentro. Oxalá elas tenham algum sabor.

Postado por assis freitas às 21h48


[]


ANO NOVO

 

fotogramas

e

estrelas

 

fogos

e

artifícios

 

o cheiro

vindo do mar

 

restos vitais

da tua saudade

 

Postado por assis freitas às 19h48


[]


Poema sem título

 

Há o caminho que não se trilha

Há um coração sem lembranças

 

Nada que eu possa repetir

Sem o assombro da mágoa

 

Mas a noite se envaidece

E tece uma louca ventania

 

Ao léu a amada entretece

O carmim de um longo véu

Postado por assis freitas às 10h39


[]


CANÇÃO DE NINAR LÁBIOS E DENTES 

 

quando você alça vôo

eu fico sem asa

não dá para ser leve

como esse sorriso

que no vento paira

Postado por assis freitas às 11h39


[]


ODE

 

Pelos passeios mouriscos

Ouvem-se os ruídos

De léguas amarescentes

Onde névoa e chuva

Confundem-se na solidão

 

Na tempestade infinda

O girassol se contorce

E cata o vento que inunda

A apátrida paisagem

Desta e outras esquinas

Postado por assis freitas às 20h38


[]


Fugacidade

não, não era verde

decerto

mas tudo dele havia

enquanto vinhas

 

e eu tonto

imantado de quimeras

não soube colher

a incandescência

daquele olhar

Postado por assis freitas às 10h21


[]


SOLITUDE

 

Depois que nos perdemos

As aves continuaram nos ninhos

A relva não parou de crescer

 

Somente meus olhos desbotaram

E ficaram assim:

Com essa cor de não sei o quê.

Postado por assis freitas às 08h36


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