Poema das descobertas
I Pássaros voavam debaixo daquele vestido E eu investido de arapucas tentava em vão II As moças com flor de tamarindo Tem sabor que intumesce lábios III Na volta que a curva faz na esquina Tem a praça, a amendoeira, o banco E a fugacidade de algumas palavras IV Doce saboroso é baba de moça Roubado no degrau da igrejinha V A felicidade só bate à porta do destino Para avisar que já está indo-se embora VI Três ou quatro coisas ficaram na lembrança O que muito se perdeu, não dói por ausência Mas castiga e atormenta como uma renúncia VII As pescarias de domingo eram o vício mais alegre Cheias de viço, visgo e vigor de uma súbita revoada VIII dona menina fingia-se em algumas intimidades que gostava de insinuar até me ver extenuado IX Coisa mais divertida o espiar pelas gretas era sempre o refazer do susto revelando-se X Quando ela foi embora, não apaguei a luz Fiquei insone com esse fardo de palavras Que não consigo dar conta pronunciá-las.
Escrito por Assis Freitas Filho às 21h48
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Canto peregrino ( a epifania) às vezes o ar rareia entre o silêncio do mar e a sinfonia na areia Canto peregrino (a elegia) Não importa este silêncio que me traz a madrugada Fito o horizonte sem remorsos Guardo-me em esperas Debruço-me no vazio da aurora E não faço renascer das cinzas A minha mágica é esta paz Que guardas dissoluta sob a face Canto peregrino (a odisséia) Alguém entrou e fez de mim prisioneiro deste laço. Daqui soletro o alfabeto e não encontro respostas. A minha caligrafia se constrói em meio ao tempo e em um teorema. Pergunto-me sempre, perquiro a palavra nova. Mas a saudade repete o tema. Imóvel despedaço a tua imagem e recordo o espaço em que as coisas aconteciam. Canto peregrino (o chamado) Quando tu quiseres Ainda há o espaço Clamando presença Quem sabe encontre Indícios de tontos nós Lassos em um lençol A dormência da tarde No vaivém da rede Este pote e esta sede Canto Peregrino (o réquiem) Ando com meus passos eternamente vazios Sem sombras, manchas ou qualquer passado Tenho os olhos voltados a aquela luz adiante Queimarei os pés até o instante de alcançá-la Pode ser a estrela imprecisa mas não importa Ali deixarei as cinzas do que não existe mais
Escrito por Assis Freitas Filho às 21h39
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